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9 de nov de 2016

SÉRIE NOVOS POETAS DO AMAPÁ 8 - RODRIGO FERREIRA



Nota:
Esta série vai prosseguir até que possamos publicar e registrar, em intervalos de 15 em 15 dias (mais ou menos!), neste blog, o maior número possível de novos poetas. O conteúdo e a revisão gramatical dos textos são de inteira responsabilidade dos seus autores.


Aguarde para breve mais um novo poeta!!!!

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JOIA

As Minas que te guardam, pedra rara,
Gerais são tão profundas, tão distantes,
Isolam os tesouros mais brilhantes...
Oh, nada nesta terra se equipara

Teus olhos, teu sorriso que me ampara,
Valem mais (muito mais) do que diamantes
Meus esforços por ti são incessantes
Quero-o de volta, amado, cara-a-cara

Mas os teus montes, aos montes, te isolam
E, mesmo sem saber, eles me imolam
Afastam-me de tua preciosidade

Pois sabem que tu és maravilhoso
E que perder humano tão ditoso
É erro para toda eternidade

Odisseu Castro

SORRISO FLUTUANTE

Flutuando por tua fronte
Refletindo todo teu ser
Bolhas e mais bolhas
Multiplicam teu sorriso

Sorriem para mim
Dançam para mim
Num colorido balé de sabão

E estouram por não aguentarem
Tanta beleza
E estouram por não suportarem
Tanta graça

Espalham-se pelo ar
Levam tua singeleza

E eu corro atrás delas
E eu brinco com elas
Mas são tão frágeis
Não me deixam prendê-las

Só me resta esperar
Na minha mão uma pousar
Refletindo o teu sorriso
Espalhado pelo ar

E estourar
De tanto te mostrar.

Odisseu Castro



OLHAR DA MADRUGADA

Eu lembro desse olhar e penso:
Que sorte que tenho dele me olhar
Perdido nesses dois universos
Dois buracos negros que tudo tragam
Que me tragam logo você

É tudo o que mais quero nesse instante:
Olhar teus olhos sobre mim de novo
Enigmáticos e tão sinceros porém
Impressionados com todo o novo

O sorriso mais lindo: vem de ti
O perfume mais belo: meu jasmim
Ele está preso ao teu pescoço
Na pele desses braços que me abraçam

Então que seja breve o tempo presente
E venha o futuro e venha a gente
Não vou dormir mais nessa madrugada
Lembrar do teu olhar tirou-me o sono.

Odisseu Castro

METAS

Quando as pernas fraquejam na pisada
Quando os olhos fecham na poeira
Tateio o ar às cegas mas meu sonho
Está bem claro para mim: és tu.

És tu que busco no fim do arco-iris
Aquela luz no final do túnel
O sonho realizado depois da luta
O beijo de amor que me fará acordar

És tu os planos que faço na prancheta
O investimento de todas as moedas
O tempo ocioso do meu relógio
A razão dos poemas mais bobos

Só quero ter de volta o melhor sorriso
E aquele toque que esquecer não posso
O teu perfume sempre inesquecível
A maior loucura da minha vida

Odisseu Castro.

PEDAÇOS

Resvalo o dedo meu sobre teu corpo
E como um ímã sobre ferro fundido
Meu ser se prende ao teu de bom agrado
Forçar nem tento, te soltar não quero

És belo e teu olhar me atordoa
O canto das sereias não mais iludem
Que o teu riso ao ar sendo levado
Pelo travesso Zéfiro aos meus ouvidos

Teu perfumado, à rosa, faz inveja
Teu brilho ofusca mais que o próprio sol
Ô perfeição maior que a de Narciso
Quem é Narciso, afinal, nesse poema?

É para ti, apenas, para ti
Estes versinhos, bobos, edificados
Nas lembranças de meu peito e mente
Saudade de estar contigo já me bate

Odisseu Castro

TALVEZ VOCÊ NÃO SAIBA

Talvez você não saiba
Talvez nem pense nisso:
Que é o seu sorriso
Que faz o meu sorrir

Talvez você não saiba
Talvez sequer se importe
Mas são teus olhos, com sorte,
Que fazem os meus abrirem

Talvez você não saiba
Que suas palavras diárias
São muito mais necessárias
Que o retorno divino

Talvez você não saiba
Meu peito bate em canção
Ao teu nobre coração
Cheio de amor para dar

Talvez você não saiba
Talvez não esteja na cara
Mas este poema escancara:
Por causa de ti, eu existo.

Odisseu Castro


Tiago e Rodrigo em evento literário


PRESENTE EMBRULHADO E ESQUECIDO

Seu presente ainda está guardado
Embrulhado no papel pardo
Com sua fita vermelha favorita
Você nunca virá buscar
A felicidade está ali
Contida
Presa por um laço
Que eu não tenho coragem
De desmanchar
A fina textura do papel
Lembra a tua pele 
No último dia em que eu a toquei
E as lágrimas que derramo sobre
Nosso suor se misturando
Tantas lembranças que me traz
O pequeno embrulho esquecido
Bastante mal embalado
Mas, com amor, todo feito
Para você e apenas para você
Que nunca o virá buscar.

Odisseu Castro

SORRISO

Eu vejo o teu sorriso desenhado
Tão sereno entre as maçãs do rosto
Formando a perfeição mais atraente
Aos olhos deste bobo encantado

Eu fecho os olhos e teu sorriso reluz
Na minha mente, no meu peito
Dentro de mim é tudo alegria
Sorrindo vou seguindo para o leito

Mesmo em sonho eu não deixo de ver
Quão belo é teu sorrir a mim voltado
Acenando para um contato de lábios

E acordo com teu beijo delicado
Com teu riso de gargalhar mais gostoso
Não há como não ficar enamorado.

Odisseu Castro




INDESEJÁVEL

Vontade de lançar-me sobre as águas
Ser tragado por ela, não voltar
Desbravar o seu profundo abissal
Ser um pedaço homem, pedaço mar

Mas sujaria o leito algum momento
Com meu corpo tão cheio de pecados
Por destruir o peito a qual morava
Peito de amores nunca desbravados

Sinto-me só. A luz do candeeiro
Não demorará a me negar seu brilho
Não há mais sentimento verdadeiro

Quem dera eu me lançar e não voltar
Para aprender eu precisei errar
Nada no mundo é eterno. Nem o amor.

Odisseu Castro

VONTADE DE PROVAR DESSES TEUS LÁBIOS

Vontade de provar desses teus lábios
Equidistantes dos meus por muitas léguas
Queria poder recebê-los por carta
E tocar tua pele como meus dedos o papel

Vontade de provar desses teus lábios
E sentir a ambrosia que corre por eles
Guardá-los dentro de mim, dentro do peito
Apenas para o meu doce desfrute

Sou egoísta, oh, quão possessivo sou
Mas não me culpe, amado, pelos meus atos
Ficar viciado em ti foi muito fácil
Quem não ficaria carece de alguns ajustes

São os teus lábios, fascinantes, que me prenderam
Foi teu sorriso, amoroso, a seduzir
Esse que escreve, corrido, fracos versinhos
Para dizer: vontade de provar desses teus lábios.

Odisseu Castro.



BIOGRAFIA

Rodrigo Almeida Ferreira começou a escrever seus primeiros poemas aos 16 anos, quando conheceu a Literatura e o fazer poético em seu ensino médio. Identificou-se com as escolas literárias clássica e árcade, criando sob a influência desta o pseudônimo Odisseu Castro, nome com o qual sempre assinou seus versos.
É formado em Letras pela Universidade Federal do Amapá e Bombeiro Militar.
Possui mais de duzentos poemas escritos, além de contos, crônicas, participações em e-books e um romance engavetado. Faz parte do grupo poético Pena & Pergaminho em Macapá e compartilha seus escritos no blog http://itacadeodisseu.blogspot.com.

Foz Florescente é seu primeiro livro de poesias, em parceria com o poeta Tiago Quingosta.

O poeta Bombeiro



23 de out de 2016

JAIME PINSKI: A EXPERIÊNCIA DE SER EDITOR

Reproduzimos em nosso Blog a excelente e muito esclarecedora entrevista com Jaime Pinski, escritor e editor, para que nossos candidatos a escritores tirem suas dúvidas.




ENTREVISTA

JAIME PINSKI: A EXPERIÊNCIA DE SER EDITOR

A revista "Literatura" tem a honra e o prazer de apresentar a entrevista com o professor Jaime Pinsky, diretor editorial da Editora Contexto, e autor de quase três dezenas de livros

por Sérgio Simka*



       

  
Você tem quase três dezenas de livros publicados. Qual o livro que mais lhe deu satisfação em escrever?
São desafios, sofrimentos e alegrias diferentes. "Escravidão no Brasil" e "As Primeiras Civilizações" já venderam mais de 100 mil exemplares cada e tenho recebido cartas incríveis que me estimulam a não parar. "História da Cidadania" é um projeto em que consegui incorporar uma plêiade de grandes autores em uma obra que é referência absoluta e é citada quase diariamente em algum lugar do país. Mas "12 Faces do Preconceito" (também uma obra com vários autores) eu já previa que teria um papel importante na luta contra preconceitos.

Conte-nos como é a experiência de ser editor.
Isso demandaria um livro (que não está fora de cogitação). Mas é interessante lidar com pessoas que produzem, mesmo que tenham egos gigantescos, difíceis de tratar...

Como teve a ideia de abrir uma editora?
Criei, por solicitação do então reitor, a editora oficial da Unicamp. Ao concluir meu mandato, o vírus da edição de livros me havia contaminado. Não pude fazer nada, a não ser abrir a Contexto...

Quais sãos as maiores dificuldades que encontra para publicar?
A queda do número de leitores. Muitos acham que pesquisar resume-se a utilizar as teclas Ctrl+C e Ctrl+V. Tem gente que termina um curso superior sem ler um único livro inteiro! É como se alguém se candidatasse a jogador de futebol sem nunca ter dado um chute, ou a salva-vidas sem saber nadar! Do outro lado há autores que são fazedores de relatórios, não autores: são chatos e não gostam que seu texto seja melhorado.

Se alguém deseja publicar por sua editora, quais são os procedimentos que a pessoa precisa seguir? Há algum pré-requisito?
Basta entrar no nosso site www.editoracontexto.com.br e ver se seu projeto tem a ver com nossa linha de publicações. Em caso positivo, deve entrar no "seja nosso autor", preencher o que é solicitado e nos enviar, via site mesmo. Damos resposta a todos.

"QUEM NÃO FOI LEITOR NÃO VAI ESCREVER COISA QUE PRESTE. NEM DEVE TENTAR."

Acredita em inspiração para escrever? (se bem que seus livros primam pela objetividade, mas a pergunta é feita assim mesmo, mais num sentido generalista).
Acredito mais em formação adequada e disciplina. Quem não foi leitor não vai escrever coisa que preste. Nem deve tentar. Continuo achando que as pessoas deveriam ler mais antes de arriscar a escrita de um livro, que é coisa muito séria. De resto, o talento não é distribuído de forma equitativa pelos habitantes do nosso planeta.

Para você, o que significa ser escritor?
Depende a que tipo de escritor nos referimos. De qualquer forma, para sermos escritores temos que ter leitores. Assim, a escrita implica diálogo. Escrever, portanto, é dialogar, antes de tudo...

Uma mensagem aos que desejam se lançar no mundo editorial.
Leiam muito. Depois, se acharem que ainda têm algo novo a dizer, não hesitem. Do contrário, continuem lendo.
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NÚMEROS DA LEITURA NO BRASIL
No segundo semestre de 2012 a Fundação Pró-Livro e o Instituto Ibope Inteligência divulgaram pesquisa em que 24% dos entrevistados afirmavam que cultivavam o hábito de ler durante seu tempo livre. Em 2008 - a pesquisa é feita a cada quatro anos - esse número era de 36%. A próxima pesquisa deve ser divulgada no segundo semestre de 2016. A mesma pesquisa indica que o brasileiro lê, em média, 1,85 livro por trimestre (em 2008 era 2,4 livros).
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PINSKY POR PINSKY
Após completar minha graduação em História, completei os créditos da pós-graduação na USP, onde recebi o título de Doutor menos de três anos depois de terminada a graduação. Enquanto isso, trabalhei na Faculdade de Assis, mais tarde incorporada à Unesp. Durante alguns anos dei aulas na História e em Letras da USP e, finalmente, na Unicamp. Sou livre-docente concursado da USP e o primeiro professor titular por concurso da área de Humanas da Unicamp, de onde saí para dirigir a Editora Contexto. Publiquei, entre obras minhas, organizadas ou com autoria compartilhada, quase trinta livros, entre os quais História da Cidadania, Primeiras Civilizações, Escravidão no Brasil, Cidadania e Educação, O Brasil tem Futuro? etc. Meus textos são frequentemente utilizados em provas de vestibular, concursos etc. Já fiz palestras em quase todas as principais universidades brasileiras, como as federais do RJ, MG, RGS, SC, Paraná, MT, Pará, Alagoas, RGN, Brasília, Juiz de Fora, ES, etc. etc. e em diversas instituições universitárias do exterior."
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*Sérgio Simka é é mestre e doutorando em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Autor de mais de quatro dezenas de livros sobre literatura, literatura infantojuvenil, ensaio, produção textual e gramática. Publicou, pela Alpharrabio Edições, o livro de contos Aos Quatro Cantos, em 2002. 
Conheça o site do prof. Jaime Pinsky: www.jaimepinsky.com.br

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Fonte desta matéria:




15 de set de 2016

SÉRIE NOVOS POETAS DO AMAPÁ 7 - DANIEL LIMA



DANIEL LIMA


O hábito de escrever iniciou-se com a necessidade de manter o equilíbrio e a sensatez diante de um período fortemente marcado por uma enorme desorganização intrínseca. Visto que há uma tendência em repetir aquilo que nos dá prazer e acalma, sigo escrevendo e não penso em parar, porque a escrita me oferece sensações boas, ainda mais por ter se tornado algo vital em minha vida. Pode-se dizer que essa desorganização foi o pontapé para que eu me introduzisse à arte de escrever.
Na minha escrita percebe-se uma forte  inclinação filosófica, sobretudo em se tratando de poemas; já na prosa, há a forte presença da autora Clarice Lispector, por quem tenho inestimável apreço.
Servem-me de inspiração os conflitos psicológicos, o cotidiano, a estranheza e a maneira como este mundo incognoscível se manifesta para mim. A declamação de meus poemas acontece comumente em movimentos culturais, rodas de leitura, grupos de poesia e em festivais oferecidos por escolas públicas. Em resumo, a literatura como campo de criação humana é o meio artístico que faz de mim uma pessoa encontrável e sensata. (Daniel Lima)

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Nota:
Esta série vai prosseguir até que possamos publicar e registrar, em intervalos de 15 em 15 dias (mais ou menos!), neste blog, o maior número possível de novos poetas. O conteúdo e a revisão gramatical dos textos são de inteira responsabilidade dos seus autores.

Aguarde para breve mais um novo poeta!!!!
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TEMPO CARNÍVORO

Tempo, tu és um maldito carnívoro!
Passa atrelado junto aos dias
Devorando os fragmentos
Que compõem a minha matéria,
Absorvendo-me pouco a pouco.

Tu és a própria morte!
Assassinando-me lentamente.
És um matador que se esconde
Por detrás de minhas limitações.
A ida dos dias é o teu toque ímpeto,
Deteriorando a minha fisionomia,
Registrando em mim o teu típico rastro:
- Essa bendita velhice!



CORAÇÃO DE TERRA

Há tempos que não consigo plantar
Uma flor que seja em meu coração,
Nada é mais como aquela vastidão
Sublime que um dia existiu neste lugar.
Reviro a terra a fim de plantar a flor
Que, se germinar, a chamarei de amor,
Mas os dias passam e nada acontece
E a esperança aos poucos desaparece.
Não entendo, esta terra já foi fértil!
Era habitada por grandiosas árvores
E rodeada por esplendorosas flores.
Mas agora é um lugar totalmente hostil,
Um atoleiro nefasto capaz de sufocar
Qualquer flor que aqui se tente plantar.

FRAGMENTOS DE MIM

Tiram-me os fios
Que constituem
Minha tecelagem
Corpórea
Conforme caminho.
Levam-me embora
Com a passagem,
Atrelado nas idas,
Como um vento
Que passa
Pelas árvores
E arranca-lhe
As folhas.
E assim sigo:
De passo em passo
Um passado,
Um fio que se foi,
Uma folha que se
Desprendeu,
Pedaços que se foram,
Fragmentos de mim...

TEÇO-ME DE SONHOS

Tenho sempre a crença e por isso faço
De todo dia, a meta de um novo passo,
Porque os dias me trazem o recomeço
Que perpetua a bela vida que mereço.
Aproveito as dobras que o vento faz
E quando uma antiga meta se desfaz
Traço tantas outras... senão padeço. 
Por isso, são de sonhos que me teço!
É na folha do reinício que me refaço
Para tecer de sonhos o meu alento,
Reescrevendo nele o meu reinvento.
E quando a morte vier me arrebentar
E eu não mais puder me reinventar,
Destecerei no sepulcro e desfaço.



O MISTÉRIO DA FLOR

Qual borboleta no Jardim por fascinante
Desabrocha a flor pomposa e irradiante
Demonstrando o quão bonita é a vida
Nas suas pétalas tão opulentas e floridas.
Porém, tal beleza percebida tão solene,
Deteriora-se, então, por não ser perene,
Tal como a linda flor tendo de sucumbir
Ao vento, o qual lhe faz as pétalas cair.
As flores despidas ainda encantam,
Pois as pétalas que no chão estão caídas
Continuam magníficas por tão floridas.
Mas estando no chão até me espantam,
Pois as pétalas que lhe foram formosura
Agora enfeitam a própria sepultura!

LEIA-ME!



Chega de tentares
Ler-me com tal olhar
O qual tanto me flameja,
É sabido que me desejas!
Quero ser lido
Com a tua língua graciosa
E declamar o meu gosto
Em tua boca!
E senti-la percorrer
Por todo o meu mapa
Pessoal com a linguagem
Da fervorosa paixão
Em minha pele
(A qual se arrepia com
O efeito da tua presença),
A fim de manchá-la
Com o tom dos teus
Habilidosos lábios
E visualizar o teu rastro
Percebido nas pequenas
Pegadas dos teus beijos
Molhados em minha pele.
Então, leia-me!
Mas não com olhos flamejantes,
Leia-me com a língua!



RESQUÍCIOS

Às vezes, a vacuidade silenciosa
Aquieta meus pensamentos,
Trazendo à tona
Os resquícios que há em mim,
De tudo que já vivenciei.
E isso faz com eu me
Compare a uma roupa feita
A várias diversificações
De retalhos coloridos,
Que representam minhas
Experiências com as vestimentas
Ditas precisas e rotineiras
Com as quais me visto.
E cada peça de roupa
É mais uma vivida.
E quando se transformam
Em imprestáveis trapos
De tanto que as usei,
Restam-me uns meros retalhos
Surrados com os quais
Visto a minha memória.

SIMPATIA

Lembro-me quando toquei em sua mão,
Aquele aspecto físico adulto,
Mas um olhar de menina
Com semblante carismático.
Essa sua personalidade forte
Contagiando a todos que lhe circundam;
Com esse jeito meigo e gentil
Todo e qualquer lugar que seja hostil
Será preenchido por um oásis
Que você deixará com apenas um rastro.
Agradável é a sua presença
Sinto um toque de liberdade no ar.
Mas enfim...
Foi simpatizante aquele instante
E o adiante e você se foi,
Como pétalas de rosa carregadas ao vento,
Que por onde passa exala beleza que não se vende
E venera aqueles que sabem degustar
O verdadeiro sabor da amizade
Que será recordada indelevelmente por toda a realidade.

ROSA VERMELHA

Homenageá-la-ei com ternura
Neste poema que irá versejar
O teu aspecto de formosura,
O qual constatei com o olhar.
Tanto encanto, por assim dizer,
Faz-me em versos descrever
O tanto que a tua beleza afeta
A minha sensível alma de poeta.
Foi como intervenção urbana:
- Capturaste a atenção humana
Ao vê-la formosa exposta ao dia.
Então, em suas pétalas toquei.
De perto, o seu perfume inalei,
E uma boa sensação me possuía.




CÂNTICO À TARDE

De fronte com o rio que atrai
Ao som do vento qual canção,
Extasiando o momento vão
Na tarde inebriante que se vai.
À espreita, sentado sobre o chão,
A olhar o rio que está de fronte,
Admiro o inalcançável horizonte
Que enche meus olhos de emoção.
Na magia desse enleio me prendo,
No deleite dessa tarde me rendo,
E esse momento vou registrar
Para sempre dessa tarde lembrar,
Vou inspirar deste ar essa magia,
E declamar em palavras uma poesia.


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Contatos com o autor:
(96) 99150-4818 - WhatsApp

Deixe o seu comentário ou entre em contato conosco pelo e-mail escritoresap@gmail.com

16 de ago de 2016

CARLOS KOPES E SEUS MÍNIMOS RELATOS


Carlos Kopes, diferente de muitos autores, busca a discrição, um certo isolamento estratégico e até mesmo publica parcimoniosamente neste momento em que a autopublicação é uma realidade no mercado editorial. Mas, engana-se quem pensa que sua produção não esteja acontecendo, no seu próprio ritmo, gestada com cautela e sem a pressa dos que mal alinhavam um pequeno texto e se apressam imediatamente a publicá-lo. Num tempo dominado pelos relampejos dos flashs, pelos cliques, pela avalanche de redes sociais que têm o poder de dar visibilidade instantânea a qualquer um que consiga chamar atenção, Kopes se mantém ausente desse torvelinho e dedicado aos seus afazeres na magistratura e aos encantamentos que a leitura seletiva é capaz de proporcionar a quem se dispõe a desvendar as boas páginas da literatura universal.

É com imenso prazer que apresentamos alguns textos do autor para apreciação dos nossos leitores. 
(Paulo Tarso Barros)


Kopes e sua esposa a prof. Tânia Ataíde




RELATOS MÍNIMOS



CRÔNICA DA VIDA E DOS INFORTÚNIOS DE ELIZABETH FLORES, A DONA LILI, REGISTRADA POR UM OBSERVADOR ATENTO E IMPARCIAL

Tudo que ela queria era fazer cessar o sofrimento, mergulhar no Olvido. Esquecer-se de si e do fardo que a vida lhe impusera. E por isso bebia, bebia.
Quando Olvido Amâncio de Jesus veio bater à porta, finalmente divorciado, era tarde: o fígado dela já havia sido corroído pela cirrose.

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Atravessando a rua naquela manhã luminosa de setembro, Domenicus Weistenhoff ainda não exibia os sintomas da doença que iria matá-lo poucos meses depois.
Isso, porém, deixaria de ter qualquer importância em alguns minutos. Porque a chuva de meteoros que passava naquele momento nas proximidades de Proteus e Nereida era massiva o bastante para deslocar infinitesimalmente Plutão, então cruzando a órbita de Netuno; e daí que aquele sedã que deveria ter dobrado à direita na esquina anterior agora seguia em alta velocidade direto para a faixa de pedestres.


Kopes, Paulo Tarso e Herbert Emanuel

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Insuficiência peniana. Depois de um longo e arrastado processo, com perícias e oitiva de especialistas, fora esse o cruel veredito. E ele, agora, deveria submeter-se a um período probatório de um ano, no qual estava obrigado a aumentar o comprimento e o diâmetro do órgão, sob pena de ver dissolvido seu casamento.
Seis meses haviam se passado, entre dores excruciantes, causadas ora pelos instrumentos introduzidos para aumentar o volume dos corpos cavernosos, ora pelos pesos que, amarrados ao pênis, deveriam alongá-lo. Muitas vezes havia pensado em desistir. Mas agora ele estava em Málaga.
A Universidade de Málaga noticiara o exitoso implante do primeiro pênis biônico, um construto feito com partes mecânicas e tecido cultivado em laboratório, ereto ao toque de um botão. E agora passaria a fazer cirurgias em outras pessoas que, como o primeiro paciente, haviam perdido por completo o órgão.
Ali no quarto de hotel estava tudo que ele precisava. O telefone da emergência médica local; o anestésico; o torniquete; a faca afiada. Executadas as etapas com precisão, foi perdendo a consciência com um sorriso, sonhando com um potente despertar, embalado pela voz cada vez mais longínqua na TV...
Notícia urgente. A Universidade de Málaga informou serem absolutamente inverídicas as notícias acerca da criação de um pênis biônico O porta-voz da instituição criticou veementemente as pessoas que teriam divulgado esses boatos fantasiosos [...]


. . . . . .


Kopes, à esquerda da desembargadora Sulei Pini e seus colegas
do Tribunal de Justiça do Amapá


O vento sopra em meu rosto e desalinha meus cabelos; eu abro os braços e sou por ele abraçado, como se flutuasse. Um brilho no canto do olho chama minha atenção e levanto um pouco a cabeça, a tempo de perceber os primeiros raios do sol, que vem surgindo à esquerda entre os prédios e lentamente tingindo tudo de dourado. A sensação de leveza e liberdade é indescritível.
Diante de uma beleza assim um homem se sente pleno, preciso admitir. Sim, senhor, todo mundo deveria experimentar essa sensação um dia, contemplar essa visão tendo o corpo simultaneamente refrescado pelo vento e aquecido pelo sol nascente. Sinto que posso deixar tudo de lado, que nenhum problema é insolúvel ou insuportável. Quero voltar para casa e recomeçar já; mas já as janelas passam por mim com velocidade crescente, e já a calçada lá embaixo se aproxima e posso distinguir suas rachaduras, será aquilo uma joani...



. . . . . .


Essa é uma acusação absurda, disse a madre superiora. E realmente parecia. Mas fato era que, tendo chegado ao convento a septuagésima noviça, naquela noite, a da sétima lua cheia do perigeu, uivos puderam ser ouvidos à distância no deserto circundante, onde nunca se tivera notícia de lobos; e no dia seguinte, murmurava-se, alguns catres haviam amanhecido intocados e outros com marcas de dois corpos, e aquele ambiente para sempre austero fora brevemente tomado por sorrisos.


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Kopes e o juiz Carlos Fernando no dia do lançamento do seu livro
Direitos para os Animais



No fim da tarde, quem desce o morro sempre avista Belarmino. Ao término da ladeira, logo após a curva, lá está ele, o corpo apoiado na mesma arvorezinha, o olhar fixo na estrada poeirenta.
Os habitantes das redondezas já se acostumaram àquela presença, quase parte da paisagem. Já os desavisados espantam-se ao ver de repente aquela figura magra ali parada, o facão atado a um lado da cintura, o embornal do outro. Alguns desses, por um momento, supõem ver nos olhos aparentemente vidrados uma sombra de loucura; mas a sensação, se surge, logo se desfaz, porque no rosto da estranha figura aparece um sorriso tímido e doce ao qual até os mais empedernidos acharão difícil deixar de corresponder.  
Mesmo para os moradores mais antigos daquele confim não há muito a dizer sobre Belarmino. Os pais morreram cedo; não tem amigos ou parentes conhecidos; e não há vizinhos próximos ao seu pequeno sítio. Sabe-se apenas que pesca, trabalha em sua roça de mandioca, e depois da faina diária caminha até aquele ponto da estrada, fazendo o caminho de volta quando escurece.
Ninguém sabe o que se passa na cabeça do matuto, dia após dia parado ali, alheado do mundo, vendo a vida passar naquele ponto da estrada. Alguns dizem que ele tem miolo mole;  outros supõem que talvez ele apenas queira distrair-se da solidão e não conheça outra maneira (e parte destes últimos concede que talvez ele realmente tenha miolo mole). De qualquer modo, ele deixou de ser novidade há muito tempo, porque nenhuma novidade sai daquele proceder contido e invariável, naquele trecho da estrada.
Belarmino, porém, sabe muito bem o que faz ali. Ele espera paciente, contrito, absorto, conforme lhe foi ordenado.
Um dia virá alguém pelo caminho. A Voz o apontará. A Voz lhe disse o que fazer. Nesse dia, quando ele passar por ali, Belarmino sacará seu facão e o retalhará em pedacinhos.
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INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR


 

Luiz Carlos Kopes Brandão nasceu em Campo Grande-MS, e vive no Amapá desde 1989. É Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Amapá. Lançou em junho de 2016 o livro Direitos para os Animais: Rompendo Paradigmas, pela Universidade Federal do Amapá, fruto de sua dissertação no Mestrado em Direito Ambiental e Políticas Públicas. Seu poema Cavalo-Marinho foi publicado na Antologia do I Festival Amapaense de Poesia (Tarso Editora/Valcan Editora, 2001); e alguns contos e uma crônica figuram nas antologias Contos do Desejo (Editora AMB, 2012), Tudo na Mais Perfeita Ordem (Editora Kelps, 2013) e Lembranças (Editora Kelps, 2013), organizadas pela Associação dos Magistrados do Brasil - AMB.