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22 de mai de 2017

PROFESSOR ANTÔNIO MUNHOZ: CIDADÃO DO MUNDO - HOMENAGENS, FOTOS & CARTAS & LEMBRANÇAS

MORRE EM MACAPÁ O NOSSO QUERIDO MESTRE, ÀS 13H30MIN, NO HOSPITAL GERAL DE MACAPÁ. 



O professor Munhoz sofria de insuficiência renal e desde 2015 começou a ter problemas relacionados à doença. Ele faleceu no dia 22/05/2017, aos 85 anos, cercado de carinho e cuidados dos amigos, ex-alunos e familiares. Seu corpo  foi velado na Assembleia Legislativa e será sepultado no dia 23/05/2017, às 17h, no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, no Bairro Central , em Macapá.


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Reproduzimos abaixo a Matéria publicada pelo Portal G1, produzida pela jornalista Fabiana Figueiredo:

MATÉRIA DO G1 publicada em 22/05/2017
Por Fabiana Figueiredo, G1 AP, Macapá

Antônio Munhoz Lopes, de 85 anos, conhecido como professor Munhoz, morreu no início da tarde desta segunda-feira (22) após quatro paradas cardíacas por complicações de insuficiência renal. Ele estava internado desde a manhã desta segunda na UTI do Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima (Hcal), em Macapá.
A família informou que o velório acontecerá a partir das 17h desta segunda, na sede da Assembleia Legislativa do Amapá (Alap), no Centro da capital. O velório acontecerá na terça-feira (23), com horário e local ainda a confirmar.
De acordo com familiares, o professor adquiriu uma infecção durante hemodiálise e foi internado em um hospital particular no dia 10 de maio. Liberado há 4 dias, ele voltou a sentir fraqueza e dores e foi internado. Na manhã desta segunda-feira, ele foi transferido para o hospital geral, onde era acompanhado por médicos na hemodiálise, e teve 4 paradas cardíacas.
Professor Munhoz foi um paraense que dedicou quase 60 anos de vida à educação, poesia, música e história do Amapá. Ele também era considerado por intelectuais “cidadão do mundo”, por viajar por países da Europa, África e da América do Norte, segundo registrado no último poema escrito por Alcy Araújo, em 1989.
Homenagens
A morte do professor Munhoz emocionou diversos amapaenses nas redes sociais, como historiadores, escritores, religiosos, entre outros profissionais.
“Descanse em paz, Professor Munhoz. Você educou gerações e deixa milhares de alunos de luto. Vai ser muito difícil a gente esquecer este personagem que escolheu o Amapá para viver e também para descansar”, comentou o historiador Edgar Rodrigues.
"E neste Dia do Abraço meu amigo Munhoz, aos 85 anos, acaba de partir, abraçado pelos anjos é recebido por Deus com um abraço de luz. Minhas lágrimas abraçam as lembranças dos belos momentos que vivi com ele", postou a escritora e jornalista Alcinéa Cavalcante em uma publicação no Facebook.
O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) emitiu nota de pesar sobre o falecimento de Munhoz. Ele externou condolências e agradeceu à contribuição cultural, educacional e histórica do professor Munhoz para o Amapá.
A Confraria Tucuju, instituição da qual Munhoz era sócio desde a fundação, também emitiu nota de pesar, lamentando a perda, lembrando das diversas homenagens feitas a ele em reconhecimento aos gestos de gratidão e amor pelo estado.
Intelectual, historiador e poeta
Filho de José Ayres Lópes e Izabel Munhoz Lópes, professor Munhoz nasceu em Belém, estado do Pará, no dia 10 de fevereiro de 1932. Se tornou bacharel em direito, e veio morar no Amapá em 1959, quando ingressou no serviço público do ex-território como delegado de polícia.
Ele também se formou em letras, curso que lhe permitiu lecionar em escolas como o Colégio Amapaense, Escola de Arte Cândido Portinari, Universidade Língua Latina e a atuar no Conservatório Amapaense de Música.
Entre os reconhecimentos que ele recebeu estão os de “Mestre do Ano” entregue pelo governador Ivanhoé Gonçalves Martins (1969); diploma de Honra ao Mérito concedido pela Câmara Municipal de Macapá (1987); “Destaque 1988”; Colar do Mérito Judiciário, concedido durante o I Congresso Internacional de Magistrados da Amazônia; “Cidadão Amapaense”, entregue pela Assembleia Legislativa do Amapá (2003); e Medalha do Mérito Universitário (2008), da Universidade Federal do Amapá.
Munhoz também fez parte do Conselho de Cultura do Amapá entre 1985 e 1989 e era membro da Academia Amapaense de Letras. Em 2012, quando completou 80 anos, em uma das homenagens que recebeu, descreveu um pouco da vida que levou em Macapá no blog Porta-Retrato.
“Foi a partir da minha chegada a Macapá que a minha vida passou a ter um sentido maior. No mais profundo de mim mesmo, tenho medo da morte porque ainda amo a vida, com o que ela tem de bom e bela. O que sou hoje, e tudo que vi e vivi, devo aos amapaenses, embora nada tenha recebido de graça. Tudo que fiz na vida, até agora, foi fruto do meu trabalho, do meu esforço do meu suor”, escreveu Munhoz.

(Com informações dos historiadores Edgar Rodrigues e Paulo Tarso Barros)
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Estas foram as últimas fotos que fiz do Mestre no Hospital São Camilo ao lado do seu irmão Lópes Ayres no dia 10 de maio de 2017.





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Nota do editor:
Matéria republicada, atualizada, com acréscimo de texto e fotos.

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Portanto, em comemoração ao aniversário do querido mestre, que ocorre no dia 10 de fevereiro, estamos publicando várias homenagens neste espaço do blog Literatura no Amapá, que ficará em permanente atualização para saudar tão ilustre personagem.


Publicamos abaixo a belíssima carta-poema que o nosso confrade Benedito de Queiroz Alcântara escreveu sobre o professor Munhoz, ao mesmo tempo em que republicamos uma postagem que fizemos anteriormente, também em homenagem ao nosso Mestre. Tudo isso para registrar e externar a nossa gratidão a esse ser humano tão especial.



ANTES QUE EXPULSEM DA SALA 
A MEMÓRIA DA GRATIDÃO
 

CARÍSSIMO PROFESSOR MUNHOZ,

Antes que minha memória seja abduzida para um poço sem fim
Antes que meu coração seja empedrado pelas fúteis vaidades
Antes que minha língua endureça num silêncio forjado
Antes que revisem minha trajetória existencial
Antes que meus olhos não possam mais te identificar
Antes que arranquem meus braços, minhas mãos, meu ...
sorriso.

Antes que não possas mais caminhar silenciosamente pelas ruas de Macapá






Prof. Munhoz caminhando sobre a calçada da residência governamental,
no Centro de Macapá. Maio/2011. Foto: Paulo Tarso Barros





Antes que não possas mais adentrar nas liturgias da Catedral de S. José
Antes que não possas mais proclamar as crônicas das tuas andanças
Antes que não possas mais comentar e questionar a vida humana
Antes que não possas mais explodir em saborosas gargalhadas
Antes que não possas mais banquetear-se com nossas comidas típicas.

Antes que te expulsem de qualquer sala
Antes que te esqueçam hipocritamente em uma solenidade
Antes que te forcem a voltar para a terra paraoara
Antes que tirem da lista de convidados de uma formatura
Antes que te olvidem dos eventos culturais
Antes que te chamem de ultrapassado e fora de moda.

Antes que...
Antes de tudo isso...

Permita professor querido, proclamar ao mundo, deixar registrado, como testemunho sincero de um ex-aluno do tempo do Colégio Amapaense, anos 1977-1978-1979, hoje um ser calejado, com filhos e trajetórias, professor de cada dia, agradecer imensamente porque Deus permitiu que um anjo seu viesse em nosso auxílio, deixar indeléveis marcas em nosso caráter, em nossa formação, em nossa visão de mundo e sociedade.

Quero testemunhar que, se hoje estou em sala, foi por causa sim de sua impetuosidade em nos ensinar a Língua Portuguesa e Literatura, como uma verdadeira viagem pelos quatro cantos do mundo, levando-me, imberbe jovem, a optar pela cátedra de história, com o sonho de trilhar as veredas dos lugares e adentrar nas facetas humanas de cada paragem.

Terno Mestre, não tinha como faltar às suas aulas, não tinha como não aproveitar cada minuto, não tinha como estudar por estudar, pois nos atiçavas para abraçar as aventuras da vida que a maturidade nos reservava.

No tosco espaço da sala de aula, ciceroneaste nossa curiosidade pelos diversos países, seduzindo-nos para os continentes, os povos e seus costumes, tudo aquilo que de mais belo e singelo o ser humano é capaz de construir.

Enfim, lá fomos nós para o chamado nível superior, sem cursinhos ou meros desafios, apenas com o que comemos e bebemos contigo e outros mestres. Era hora de partir, deixar a terrinha, deixar a família, adentrar nos mares nunca dantes navegados (por nós), não mais como expectadores e sim como atores principais.

Atravessei o Brasil, para o Sul distante e diferente. Depois para o Rio de Janeiro, dantesco e acolhedor. Mais tarde para a América Central, na Nicarágua querida. Até que, com a morte do meu pai Leandro, lá estava em missão por El Salvador e Guatemala, entre os fuzis e helicópteros da guerra maldita, larguei tudo e voltei para os meus, mais precisamente para ficar com minha mãezinha Maria até os seus últimos dias.

E por aqui fiquei, casei, vieram os filhos, sempre estudando, sempre peregrinando em sala de aula, envolvido em tantas atividades. E com o privilégio de te encontrar, na maioria das vezes, em nossas ruas e avenidas. E lá ficávamos a conversar, com o tempo parando para nós e correndo para quem nos acompanhava.

Assim vamos atravessando os sertões de nossas existências, eu também já trazendo meus cabelos brancos, que um dia espero que fiquem como os seus : cálidos e misteriosos.

Permaneço com a tenacidade de a cada dia adentrar nas salas de aula, desde a 5ª série até o Ensino Superior. E sempre, sempre, a cada ano, a cada período letivo, citar teu nome para os que hoje me chamam de professor. Recordando cada aula, cada narrativa de suas viagens, cada comentário, que se alojaram dentro de meu coração e que lá permanecerão ad aeternum.

Professor querido, em nome de toda a minha família de irmãos e irmãs que também foram teus alunos, em nome de todos os colegas de todas as turmas do “Colégio Padrão”, quero externar nosso sincero e singelo agradecimento por teres adentrado em nossa formação, em nossas vidas.

Professor querido, valeu e vale demais saber que tu vieste e permaneceste no meio de nós, desde ontem e para sempre, franciscanamente único-total-puro-universal. Tão absorto em suas meditações, tão generoso em suas reflexões, tão de tantos rostos e lugares e, maravilhosamente, tão nosso !

Neste dia, dedicado ao professor, antes que tudo desapareça ou desabe, ou que tudo possa ser mudado e esquecido, que eu possa registrar e proclamar, ao Mestre, com carinho, ao querido Professor Antônio Munhoz Lopes : VALEU !

Macapá, 15 de Outubro de 2008.



Benedito Queiroz Alcântara

Benedito de Queiroz Alcântara


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PROFESSOR MUNHOZ: 80 ANOS DE VIDA - 53 ANOS DEDICADOS AO AMAPÁ (*)

Professor Munhoz e quadro com sua fotografia na juventude
Foto: Paulo Tarso Barros/2012

Antônio Munhoz Lópes nasceu no dia 10 de fevereiro de 1932, em Belém-PA. Filho de José Ayres Lópes e Izabel Munhoz Lópes. Chegou a cursar filosofia, foi seminarista, mas acabou bacharelando-se em Direito. Chegou ao Amapá em 1959 e ingressou no funcionalismo do Território, ocupando o cargo de delegado no antigo DOPS. Porém, como escreveu o cônego Ápio Campos no jornal A Província do Pará, Munhoz emprestou à pacata segurança pública da época "um clima de cenáculo literário". Mas foi a partir de 1960 que ele deu início a uma das mais profícuas e brilhantes carreiras do magistério do antigo Território, sendo hoje reconhecido como mestre de várias gerações de ilustres figuras de destaque do Amapá.

Antônio Munhoz Lópes exerceu inúmeros cargos e funções importantes, sempre se destacando pela inteligência, a sensibilidade e o carisma. Até hoje é o nosso maior epistológrafo, pois se corresponde pelo velho e bom Correio com pessoas do mundo inteiro. Anualmente, o professor Munhoz faz uma viagem internacional e visita museus, igrejas, monumentos históricos. Foi assim que adquiriu uma cultura humanística invejável. Tornou-se um verdadeiro globe-trotter, cujas memórias há muito são aguardadas por todos nós.
 
Professor Munhoz com o Governador Camilo Capiberibe e o
escritor Paulo Tarso Barros na residência governamental - Março/2012


Felizmente, o professor Munhoz tem recebido, em vida, todo o carinho e reconhecimento pelo seu desempenho magistral em todas as funções públicas que exerceu, principalmente como educador e incentivador das Letras e das Artes. Por muitos anos foi membro do Conselho de Cultura, debatendo e formulando ideias, sugerindo ações por parte dos gestores culturais. É um dos mais assíduos frequentadores de eventos artísticos e culturais, ao lado da sua amiga, a professora Zaide Soledade.

A figura simpática e respeitável do professor Munhoz já faz parte da paisagem urbana do Centro de Macapá, em suas caminhadas diárias visitando a Biblioteca, Confraria Tucuju, livrarias, bancas de jornais, agência dos Correios (onde possui uma das mais antigas caixas postais!).


Como o mais globalizado dos pioneiros do Amapá, conhece muitos países e culturas, pois é um incansável visitador de museus, monumentos históricos, igrejas, teatros, restaurante e locais históricos. Seu acervo fotográfico se constitui no mais relevante arquivo que registra sua peregrinação cultural que tanto o estimula a cultivar os valores humanos e cristãos. Para mim, Munhoz é o exemplo maior de um cidadão que dedicou sua vida para usufruir da Arte e da Cultura e de tudo de bom que advém dessa escolha tão inteligente.
Minha primeira foto com o Mestre (1986) na
Escola de Música Walkíria Lima durante o
lançamento de meu livro "Poemas de Aço"

(*) Artigo publicado quando o professor completou 80 anos
Texto: Paulo Tarso Barros - http://twitter.com/paulotbarros













Abaixo, o poema que 
Alcy Araújo dedicou ao Mestre:

JARDIM, PODE 




(Ao cidadão do mundo Antônio Munhoz)



Como tenho sido pisado
espezinhado, espinhado, repisado
pela vida, pelos desencantos
e desesperos, angústias, desamores.



Canto a terra
a dor dos aflitos
e a inútil esperança dos desesperançados
também os negros, os índios e o verde
e presto relevantes serviços topográficos
demarcando itinerários de poesia




Quando eu morrer
alguma vereador
que leu ou sentiu meu verso
que sabe ou ouviu falar do meu cantar
apresentará projeto de lei
para que eu vire beco, rua ou avenida



Não quero esta homenagem
Recuso até ser praça
alameda, assim também parque ou estrada
Quero ser um teatro
um obelisco, uma escola
Academia, também não.


Rua, avenida, beco, não quero não
Não quero que continuem pisando em mim.
Pisar em mim,
só se eu virar jardim.













Leia a biografia completa do professor Munhoz baixando a obra "Personagens Ilustres do Amapá", de Coaracy Barbosa. Clique aqui para baixar







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O ano de 2012 foi escolhido pela Secretraria de Estado da Educação para homenagear o professor Munhoz. Dentre as muitas homenagens, destacamos a Aula Magna que ele ministrou no auditório do Juseu Sacaca no dia 11 de dezembro de 2012.
Abaixo, publicamos um texto do professor (e ex-alno do Munhoz) Paulo de Tarso Gurgel, que faz um roteiro do que foi a preleção do mestre nessa noite memorável, que aqui vai registrada através das fotografias.

ANTÔNIO MUNHOZ LOPES UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO AMAPÁ
Colégio Amapaense. O ano pode ser 1968, 69, 70, 71, 72, 73, 74. Toca a primeira campainha. Apressados todos os alunos sobem as escadarias do famoso Colégio Padrão. Sentados, aguardamos o Mestre. Toca a segunda campainha às 18h30. Britanicamente, ele entra em sala, sorridente e saúda a todos com um suave boa noite. Deve ser a segunda quinzena d...
e dezembro. Antônio Munhoz Lopes, titular da cadeira das disciplinas Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira do tradicional Colégio Amapaense, logo, ele é o catedrático. Inicia, então, mais uma de suas brilhantes aulas àqueles estudantes ali presentes. Com um olhar quase 43 (naquela época ainda não existia o meu olhar 43), observa como sempre uma carteira vazia, notadamente, o seu “dono” ainda não chegara.

E assim o mestre inicia a aula: – “Caríssimos alunos, na próxima semana faremos a nossa prova final. Os senhores e senhoras estão concluindo o 3° ano científico ou 3° colegial. Muito bem. Então, a nossa prova abordará os temas, as matérias que trabalhamos durante esses três anos. [O mestre faz que não escuta os murmúrios: “essa não”, “de novo”, “era só o que me faltava”, “isso eu já sei de cor e salteado”]. E isto vai muito ajudá-los nas provas dos vestibulares que vocês farão em Belém, para a Universidade Federal do Pará e, vocês amapaenses sempre abiscoitaram as vagas oferecidas naquelas instituições: a UFPA e FCAP- Faculdade de Ciências Agrárias do Pará.

– Lembremos: No 1° ano estudamos as origens históricas da Literatura Portuguesa, a língua portuguesa, esta uma língua neolatina como o espanhol, o italiano, o romeno dentre outras. O primeiro documento literário português escrito é a célebre “Cantiga da Ribeirinha” de Paio Caldeirós. Não esqueçamos do grande poema épico português de todos os tempos que é “Os Lusíadas” [Aí o mestre interroga e a plateia atenta responde: Luís Vaz de Camões] Continuando meus estimados alunos, [nisto chega o dono daquela carteira vazia – adivinhem – Rodolfo dos Santos Juarez e, como sempre, levou um belo “ralho”], não poderia neste momento de fazer, melhor dizendo trazer para os senhores, a titulo de colaboração para suas leituras complementares estas obras da Literatura Brasileira, tanto no romance como nos versos, copiem por favor, só irei pronunciar somente uma vez, então, vamos: vou tecer breves comentários sobre a obra e quanto aos autores é de vossas competências [murmúrios outra vez], Já. Valendo. Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro - plateia atenta e assopros - Joaquim Maria Machado de Assis; Vidas Secas - Graciliano Ramos; Os Sertões - Euclides da Cunha [interessante que, quando o mestre citava a obra, os nomes dos autores sussurravam baixinho entre todos os alunos]. Continuando - O Guarani, quem é o autor Rodolfo?, “hein, o quê?”... é o que dá chegares sempre atrasado, respondam pra ele e todos: José de Alencar. Ainda sobre o romancista de Messejana, Paulo Tarso Barros, você que é aluno ouvinte do Maranhão, como se inicia o romance Iracema? Prontamente o futuro poeta responde: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida; agora a obra que fala da decadência dos senhores de engenho do Nordeste, [me arvorei e falei Menino de Engenho, de Ariano Suassuna, errado; Fogo Morto de José Lins do Rego, o resto da aula fiquei calado] e uma obra que traz um Brasil que pouco conhecíamos: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.

– Vamos, continuando, estão cansados? Não, vocês são jovens e tem toda a energia do Paredão* para vos fortalecer. Os principais poetas brasileiros: O Boca do Inferno, como era conhecido o............................. Gregório de Matos Guerra; - um poeta altamente erótico [essa palavra causava calafrios em toda a sala] – Tomás Antônio Gonzaga – o Dirceu enamorado pela jovem Marilia – Maria Dorotéia de Seixas; Gonçalves Dias, de “Os Timbiras” e da “Canção do Exílio” e Zaíde Soledade declame a 1ª estrofe, e ela, levanta-se e obedece didaticamente:

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como as de lá.
Não permita Deus que eu morra.
Sem que eu volte para lá!”

A plateia aplaude e pede bis.

– Temos o nosso poeta dos escravos, que morreu prematuramente, aos 24 anos de idade: Antônio de Castro Alves, suas obras “Espumas Flutuantes” e “Navio Negreiros”. Não esqueçamos da grande poetisa do “Romanceiro dos Inconfidentes” – Cecilia Meirelles.

– “No meio do caminho existia uma pedra” – o genial mineiro de Itabira – Carlos Drummond de Andrade, cujo poema “E agora, José?” transformou-se num grande sucesso musical na voz de Paulo Diniz.

– Crianças, ainda estamos no começo desta nossa aula, lembrem-se que na prova de 50 questões eu faço as perguntas e vocês escrevem apenas a resposta, de preferência que ela esteja correta. Não deixemos de mencionar o poeta pernambucano, autor de “Libertinagem” – Manuel Bandeira.”

O mestre, então, começa a declamar um poema:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

– De quem estamos falando? Qual o título desta obra?
Todos respondem: Vinícius de Moraes – So-ne-to de Fi-de-li-da-de.

– Ainda temos Jorge de Lima com “Invenção de Orfeu”!

– São 22h20, ainda temos mais dez minutos e espero que não esteja cansando os meus diletos discípulos [“que é isso professor, pode mandar brasa”, grita a plateia, doida pra ir embora, mas bastante honrada com aquela aula, podemos dizer, “magna”]. Não devemos deixar de mencionar o primeiro documento literário no Brasil, escrito por Pero Vaz de Caminha, a Carta de Caminha, narrando sobre o Descobrimento do Brasil e já trazendo os primeiros sinais do nepotismo para a vida politica brasileira, a obra magnifica do missionário das Ilhas Canárias, precisamente de Tenerife – o beato José de Anchieta, o Padre Antônio Vieira com o célebre “Sermão aos peixes”, criticando os poderosos daquela época, numa igreja em São Luís do Maranhão. Ainda existe o púlpito de onde aquele grande orador proferiu esta sua magnífica obra; um outro nome: Antônio de Santa Rita Durão, Álvares de Azevedo que recebia influencia de Lord Byron, que por sua vez influenciava o Rodolfo (sempre o Rodolfo). Vejam o Naturalismo de Aluísio de Azevedo, com O Cortiço, Casa de Pensão, O mulato O Simbolismo com Alfhonsus Guimarães. Espero não ter esquecido de João Cabral de Melo Neto com sua “Morte e Vida Severina”.

Ainda faltam 2 minutos. Na literatura paraense citemos Inglês de Sousa, Dalcídio Jurandir e Lindanor Celina. Meninos e meninas, nesta aula de encerramento deste ano letivo, espero encontrá-los, quem sabe daqui a 20, 30, 40 anos, num local bastante agradável, com a graça de Deus e a presença de todos vocês. Até lá estarei oitentão, e alguns de vocês setentões, sessentões e outros passando dos cinquenta. Reafirmo neste momento que pelo Amapá o meu coração bate mais forte, pois aqui cheguei em 1959, com 27 anos de idade, a convite do governador Pauxy Gentil Nunes, irmão de Janari e Coaracy – o Amapá era conhecido como a “terra dos Nunes”. Vim para ser delegado de Policia, mas o magistério foi a minha grande paixão e agradeço a Deus por este momento e a presença de vocês, meus caros e eternos alunos.”

O mestre aproveita para alfinetar, metaforicamente, os desmantelos da ditadura militar que governava o país, e lembra o nome do grande religioso Dom Helder Câmara, arcebispo do Recife e Olinda.

De pé os alunos aplaudem o Mestre e cantam a música “Ao mestre com carinho”

(Aula proferida no auditório do Museu Sacaca em 11.12.2012).
*Paredão – antiga cachoeira no atual município de Ferreira Gomes, cujas forças d’água serviram para construção da 1ª hidrelétrica do Norte – a Hidrelétrica do Paredão, inaugurada em 1976.


Paulo de Tarso Gurgel (ao centro) ladeado pelo
professor Munhoz e por Paulo Tarso Barros

Paulo de Tarso Gurgel
Turismólogo. Licenciatura Plena em História
Aluno do “Munhoz”, no Colégio Amapaense nos anos de 1973/74.
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Fotografias da Aula magna ocorrida em 11/12/2012 no Museu Sacaca.


* * * * * * * * * * * * * M* * * * * *

CARTAS DO PROFESSOR MUNHOZ PARA A
PROFESSORA ESTER VIRGOLINO


Publicamos abaixo, com a anuência do professor Munhoz, algumas cartas que ele escreveu a sua grande amiga e companheira de magistério a professora Ester Virgolino.

Para ler as cartas, Clique nas imagens 
para ampliá-las!

Professora Ester da Silva Virgolino - 1978 (Arquivo de João Lázaro)



















MAIS FOTOGRAFIAS DO MESTRE







20 de mar de 2017

SÉRIE NOVOS POETAS DO AMAPÁ 9 - NETH BRAZÃO

Nota:
Esta série vai prosseguir até que possamos publicar e registrar, em intervalos de 15 em 15 dias (mais ou menos!), neste blog, o maior número possível de novos poetas.
Esclarecemos que aqui não fazemos juízo de valor nem apreciação crítica (apenas a divulgação!), mas é livre os comentários e opiniões dos nossos leitores e internautas, desde que pertinentes e referentes aos textos -- e não ofensivos, é claro.
O conteúdo, revisão ortográfica e gramatical dos textos são de inteira responsabilidade dos seus autores, bem como o copyright.


                                   Aguarde para breve mais um novo poeta!

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NETH BRAZÃO é professora do quadro estadual do Governo do Amapá, graduada em artes visuais pela UNIFAP e pós-graduando em Docência do Ensino Superior, Português e Literatura e Neuropsicopedagogia, com alguns poemas publicados em três coletâneas poéticas, participa de grupos e saraus e deu seus primeiros passos na literatura amapaense produzindo poemas como estes que publicamos agora — como parte deste projeto de realizar uma amostra dos autores que iniciaram a trajetória em anos recentes e buscam seu espaço, seja através de blogs, redes sociais, espetáculos ou em publicações impressas. 
Seja bem-vinda, Neth Brazão!



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INSTANTE

Uma taça de vinho
Um caderno de rabiscos
Uma música de fundo
E um sonho mal desenhado.
Um amor engaiolado
Uma mentira mal embrulhada
Uma vela sem chama
E um coração despedaçado.
Duas taças de vinho
Folhas rabiscadas
Música sem sentido
E um sonho apagado.
Um amor que voou pra longe
Uma mentira escancarada
Uma vela derretida
Folhas todas molhadas.

ELOQUÊNCIA

Por que não me levas
Em teus pensamentos
Com a mesma intensidade
Que ficaste nos meus?
Ainda pinto a boca de vermelho
Só para o meu desejo
Provocar o teu
E deixo-me solta esperando
Tua chegada...
Chegada que tarda a acontecer.
Então vem!
Há uma chama esperando
Faça-me tua!



 NOSTALGIA

Espero o dia chegar,
O que me trará teu sorriso,
E ao ouvir a tua voz
Saberei que a dor se foi
Então me abrigarei em seus braços
E descansarei meu amor.
O sol entrará pela janela,
Eu já a abrir há tempo
E em cada raio de luz
Tua presença invadirá
Meu céu que de cinzas
Ficará azul,
E... eu me farei tua!
Não demores a vir!
Não suporto mais a tua ausência,
Estou definhando em saudades
De coisas que ainda nem vivi.



ROMARIAS

Possuías vitrines de um amor
Sem terra ou céu,
Em tenebrosas passarelas caídas
Que as cobre de pensamentos
De um tempo superficial.
Sonhos despidos de vida,
Em possuir o almejado
Que para longe partiu.
Tétrico fim do que nunca foi verdade
Além do inspirar;
Sonhar;
Querer...
Amar, além de um casulo
É ousar...
É jogar-se no desconhecido
Sem saber se vai cair:
Em braços;
Ombro;
Ou solidão...
Seguir em romarias calhadas
Buscando o impossível, o amor.

...
Meu querer ignorado
De me deitar ao seu lado
E sem palavras me deixar
Jorrar os litros que me sufocam o peito.
Tem tanto de sonhos quebrados cortando os meus pés.
Não sei como ir além,
Não sei sair daqui...
A noite é pétrea
Me desola a alma
Me jogando nos braços da solidão.





(DES) PALAVRANDO

Essa mórbida saudade
Com o cheiro da tua pele,
Me discípula a sentir
Em fragmentados segundos
O gosto embriagante da tua quente boca.
Chega a ser masoquista a lembrança
Do último tom da voz,
Ainda assim a quero lembrar.
Quero revirar os dias de contentamento
Só para te ver nas sombras cinzas
Do melhor azul esculpido nas tardes
Dos dias qualquer.
Então me propus a te recriar em obras
Abstratas no silencio,
E no pulsar mais quente do meu peito
Te fundi.
E nos espelhos da minha vida
Vejo muito mais de ti
No meu viver desconstruído,
Esvoaçado pela paixão.



POETIZANDO

Minha poesia tem de tudo
De uma alma vazia,
Lacrada no muro,
Per posta ao tempo de lá.
Minha poesia se funde
Na eloquência da noite
Chorosa a sorri,
Se monta na lua, se lança ali.
Minha poesia te beija
No silencio malandro
Da nega perfumada
Que rebola no cais.
Corre estradas sem destino
Se reinventa no tempo
E reo
Torna ao amor
Que a fez existir.



SOMBRA

As margens da estrada de chão
Desaparecem no inóspito neblinar
Que se firma no momento,
Mal se pode ver apenas sentir.
Sinto você se aproximando em vento
Forte, arrasador que domina o espaço
Interno que luta para dissipar o medo,
O medo da escuridão...
Tendo o frio como cobertor,
Aumenta a fala do que um dia se fez
Corpo,
O amor.
Envolvo-me em meus braços
Estão vazios não encontraram você.
... ao meu lado resta minha sombra,
Eu sou o que sobrou de ti.

 
Neth Brazão com artistas e outros poetas
em evento na Praça Veiga Cabral - Macapá - AP


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Contatos com a autora:

https://www.facebook.com/ilnete.rabelo

(96) 99106 6258